Dançando com a Membrana Basilar

 

O que seria da apreciação de uma bela música, do ouvir da(o) namorada(o) segredinhos no ouvido, da conversa de amigos no bar de sábado a noite, caso não houvesse a membrana basilar e as células sensoriais esteriociliadas? A menos que pudessemos criar algum tipo de conexão direta com o córtex temporal, não poderiamos apreciar tais aferências sensoriais do meio externo. Tudo isso porque a membrana basilar é a grande fonte de transformação de energia mecânica em energia audível. O som ou a energia mecânica, entra pelo ouvido externo, passa pela cadeia de ossículos até atingir a janela oval, o que aumenta fortemente a pressão da onda exercida no interior da cóclea devido a diferença de área do meato externo e da janela oval. Essa onda ao ser transmitida para a janela oval, dissipa-se no líquido existente no interior da cóclea, o que faz promover vibrações de acordo com a frequência sonora. Alguns perguntarão: Mas se o líquido é incompressível como se move? A resposta é simples: Não há só a janela oval. Há também a janela redonda que é flexível a movimentos e permite o deslocamento do mesmo. É interessante notar que a membrana basilar possui uma gradação de fina a espessa, de tal modo que, altas frequências sonoras fazem maiores oscilações na parte espessa e baixas frequências estimulem bem mais a parte fina. Desse modo, a membrana basilar funciona como um decodificador de frequências. Como a célula estereociliada sensorial está acima e apoiada sobre a membrana basilar e células de sustentação, o movimento da membrana basilar desloca a célula e o líquido (perilinfa) que a circula, bem como a membrana tectórica que se encontra fixada nos cílios. O resultado desse movimento é o deslocamento dos estereocílios quando há energia sonora. Esses estereocílios são ricos em canais de potássio que estão arranjados de forma mecânica, de forma que a torção da célula gera a abertura desses canais. Como a perilinfa é rica em potássio devido a transporte ativo, a despolarização da célula sensorial ocorre por potássio e não por sódio como estamos acostumados a ver. Essa despolarização por sua vez, leva a abertura de canais de cálcio que promovem a exocitose de granulos de transmissores que atingirão axônios de neurônios cujos corpos estão situados no gânglio espiral situado no osso modíolo. Cada célula sensitiva recebe aproximadamente 10 axônios de inervação. A partir daí a condução do impulso é levada pelo nervo auditivo até formar o VIII par, passando pelos núcleos olivares superiores (onde já ocorre a integração biaural pelas linhas de retardo), pelo colículo inferior, colículo superior (onde ocorre integração visual), núcleo geniculado medial no tálamo e no córtex temporal, onde também há percepção em faixas de frequências organizadas nas estruturas neuronais. É interessante notar como essa linguagem bioelétrica se faz e como ela é fascinante. Ouvir um som, uma nota, qualquer elemento mínimo da palavra, requer uma série de processos coordenados, traduzidos, decodificados, percebidos em muito menos de um segundo. Viva a dança da membrana basilar!